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Painel aborda ecumenismo e resistência ao golpe na América Latina e Caribe

15 de março de 2018
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No dia em que o Brasil acordou abalado pela morte violenta da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, assassinada a tiros na região central da capital fluminense, a programação do Fórum Social Mundial realizou o painel ecumênico “As Igrejas na resistência aos cenários de golpe na América Latina. Nesse contexto, a atividade teve início com um momento de homenagem e denúncia da cultura de violência persistente e impiedosa com a população negra, periférica e pobre e com todos aqueles e aquelas que abraçam a causa dos direitos dessa população. Marielle acaba de entrar para as estatísticas que tanto denunciava, mas se depender da ação dos movimentos e pastorais sociais não será apenas um número.

Oportunidades de resistência

Na mesa, os/as painelistas abordaram a conjuntura atual, destacando a complexidade das iniciativas golpistas, e as oportunidades de resistência a partir da perspectiva e organização ecumênica.

Ao tratar da ação pastoral das Igrejas no  âmbito social, o teólogo católico Júnior Aquino, defendeu a ótica da dimensão socioestrutural, tomando como base a fé. “O Deus que nós acreditamos é o Deus da vida. Todo grupo, movimento que se organiza para defendê-la, na luta por direitos, age de acordo com o Espírito de Deus. A fé em Deus não se restringe ao âmbito da interioridade, mas diz respeito também aos valores, às convicções, às posições que vamos tomando cotidianamente”, afirmou Aquino. O teólogo também destacou a morte violente de Marielle como momento de intensificar a esperança e a ação transformadora: “A nossa esperança é uma esperança em luto, mas o nosso luto é esperançoso, por isso cantamos, por que temos a certeza de que o sonho brota como ação do Espírito que surge a partir das bases, na resistência cotidiana no campo na cidade. Onde houver resistência nenhum crente pode ficar indiferente, enquanto alguém cair, tombar nenhum cristão pode ficar indiferente. Que o sangue de Marielle regue a nossa esperança, a nossa utopia”, concluiu.

Lógica consumista

No entanto, o contexto atual tem se configurado pelos avanços da injustiça e da violência, oferecidos por golpes, que são permanentes e atingem as populações dos pontos de vista emocional, político  e econômico. Essa é a percepção do teólogo católico chileno, Diego Irarrasaval. “Eu acho que o golpe é constante, que não tem uma data, ele é processual, constante, e já dura muitos anos. O sistema atual que tem provocado uma dependência à lógica do consumismo é um golpe que leva não apenas a consumir coisas, mas a condicionar a noção de felicidade ao consumo, esse golpe está destruindo nossos povos”, disse  Irarrasaval.

A pastora Batista, Odja Barros, falou sobre a utilização perversa da Palavra de Deus para a exploração e violência, sobretudo, em relação às mulheres. “As nossas estruturas estão influenciadas pelo fermento dos fariseus. O próprio Jesus nos alertou. É importante tomar cuidado para que nossas organizações, inclusive ecumênicas, não sejam alimentadas por isso”, destacou. Também fazendo referência aos impactos que a morte violenta da vereadora Marielle Franco traz para o país neste momento de tensões de toda ordem, a pastora enfatizou: “Nenhum minuto de silêncio, quando vivemos um golpe fatal que é a perda de uma de nós é hora de gritar, de denunciar”.

Para despertar uma consciência diferente, a pastora Luterana, Cibelle Kuss, propôs trabalhar, de forma didática e pedagógica, promovendo uma reflexão, formando novos vínculos comunitários, fortemente alicerçados com uma formação bíblica consistente e transformadora. “As resistências precisam ser compartilhadas porque ela nos anima, especialmente nesses últimos anos que estamos nos articulando mais com iniciativas ecumênicas para fazer o reconhecimento de elementos como o racismo que afeta, de modo mais direto a juventude negra e as mulheres”, destacou a pastora.

Voltar a origem

O monge beneditino, Marcelo Barros, falou sobre a necessidade de retomarmos as nossas origens. “É preciso reconhecer as formas de resistência dos povos indígenas e quilombolas, desconstruindo as formas de cristianismo” Recordando, dom Pedro Casaldáliga, destacou: “a Igreja não pode ser só democracia, mas comunhão”.

A atividade integrou a programação do Fórum Social Mundial 2018 e foi realizada no teatro da Faculdade ISBA, na orla de Salvador (BA). A evento foi organizado pela Cáritas Brasileira, CESE, CEBIC, CIMI, CPT, FE-Brasil, Frente Evangélica pelo Estado de Direito, Pastorais do Campo e Comissão Episcopal da Pastoral para Ação Transformadora.

Por Jucelene Rocha e Wagner Cesário
Rede de Comunicadores/as da Cáritas Brasileira
Foto: Alan Lustosa

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